Sobre sentir (e agir)
A semana começou e eu estava triste mesmo sem motivo óbvio. O sábado anterior foi ótimo. O domingo, nem tanto, mas nada grave ou marcante aconteceu. Foi um fim de semana de eventos familiares, oficina de escrita, almoços deliciosos. Em qualquer outro momento da vida, eu teria acordado na segunda-feira com um sorriso no rosto. Mas eu só conseguia pensar que não estou no lugar certo. Em nenhum quesito da minha vida eu sinto que ocupo o lugar certo, nem tenho ideia se um dia chagarei lá. Para ser sincera, nem sei se isso existe.
Começo, então, a racionalizar tudo. E a agir. Post no LinkedIn feito, conexões retomadas em um networking digital que eu mesma considero infernal. Busco por novos cursos, editais, oportunidades. Saio fazendo tudo que está ao meu alcance, planejando, maquiando. Afinal, se estou triste e sinto que não estou fazendo o que deveria, preciso me movimentar. Não existe tempo para entrar na fossa, ou realmente desabafar com alguém e dividir os meus sentimentos de maneira realmente honesta, e não como uma descrição factual e científica. Quando converso com amigos próximos, muitas vezes me vejo listando coisas que penso que deveria estar sentindo como se fossem ingredientes de uma receita, ou uma lista de super mercado.
A ideia principal parece ser criar estratégias para consertar a tristeza e a insatisfação. Mas nunca funciona, de verdade. Eu me iludo com a felicidade temporária de me sentir produtiva. Posso estar na merda, mas veja, eu estou correndo atrás de todas as oportunidades para mudar a minha vida. Que muda, de pouquinho em pouquinho, como deve ser, segundo a minha terapeuta. Pobre coitada, me ouvindo lamentar ano após ano sobre coisas que, antes, eu via como sonhos a serem realizados. Um looping eterno de descontentamento e falta de celebração. Sou grata por poder fazer terapia, e notar em análise que dissecar sentimentos e traçar planos não “resolve” a tristeza, porque a tristeza precisa ser sentida.
Desaprendi a sentir as coisas e deixar que elas sejam como são. E se é para culpar alguém, culpo o capitalismo (e a mim mesma, vai). Fico correndo atrás do meu próprio rabo no impulso eterno de me distrair de quem eu sou, ou estou.


"Pobre coitada, me ouvindo lamentar ano após ano sobre coisas que, antes, eu via como sonhos a serem realizados. Um looping eterno de descontentamento e falta de celebração."
Como eu me vi nesse trecho, parece que foi escrito pra mim. A dura ficha que cai (bem na nossa cabeça) quando nos percebemos como realmente somos, e não no que achávamos que queríamos ser nos nossos 20 e poucos anos. Amei o texo! <3